

As tecnologias de aprendizagem não foram criadas para o mundo de hoje.
A maioria das plataformas nasceu para atender a funções estáveis, habilidades previsíveis e mudanças lineares. Contudo, hoje precisamos reformular estratégias a cada seis meses, as ferramentas de IA evoluem mês a mês, e as expectativas se transformam antes mesmo que as equipes absorvam os padrões vigentes até então.
Nesse cenário, a aprendizagem precisa ir além da mera oferta de informações para ajudar os profissionais a se adaptarem com rapidez, recorrência e mão na massa.
Nesta era de mudanças constantes, a inovação e o acesso cada vez mais fácil às ferramentas de IA estão revolucionando nossa maneira de trabalhar. É preciso perceber, no entanto, que a IA não é a protagonista dessa história. Os holofotes estão nas mudanças. É a constância delas que está impulsionando as tecnologias de aprendizagem para além da distribuição de conteúdos e para assumirem um papel mais prático, mais voltado às experiências e mais alinhado à forma como o trabalho realmente acontece.
No webinar da Degreed O Futuro da Tecnologia de Aprendizagem com IA, líderes da Boehringer Ingelheim e do Fosway Group falaram sobre o que está realmente mudando (e funcionando) agora que a IA está saindo do seu estágio de experimentação para adentrar em uma fase de execução.
Os líderes de negócios sabem aonde querem chegar. No entanto, é comum faltar uma visão clara e unificada das habilidades que a força de trabalho precisa ter para que esses objetivos se concretizem.
Martin Hess, diretor de aprendizagem da Boehringer Ingelheim, traz um direcionamento simples, mas muito poderoso: use a IA para analisar documentos de estratégia corporativa e produzir uma lista inicial das habilidades necessárias para tirar as ideias do papel.
De repente, em vez de ter conversas abstratas sobre transformação, os líderes de aprendizagem conseguem trazer elementos tangíveis que impulsionam a iniciativa e dizer, por exemplo: “Com base na estratégia proposta, estas dez habilidades parecem fundamentais. Vamos colocá-las à prova juntos”.
Com isso, o alinhamento se acelera, o engajamento da liderança fica mais forte, e a aprendizagem adaptativa passa a se ancorar em prioridades de negócios reais, não em metodologias genéricas de habilidades. Em vez de tomar o lugar do bom senso humano nesta situação, a IA promove fluidez e sintonia entre todas as partes envolvidas.
Há décadas a área de T&D vem falando sobre a importância da prática para sedimentar habilidades, especialmente no caso de soft skills ou daquelas habilidades intangíveis que mostram seu valor em contatos comerciais, momentos de liderança e interações que envolvem feedbacks delicados.
É raro que os colaboradores tenham oportunidades seguras e recorrentes suficientes para testar uma habilidade antes que seja para valer. Embora funcione, o coaching individual é caro. As simulações também são interessantes, mas só quando o grupo é pequeno. Com isso, a maioria dos colaboradores nunca pratica o bastante para desenvolver autoconfiança.
As ferramentas de IA e realidade virtual estão gerando oportunidades inéditas nesse sentido. Simulações viabilizadas pela IA e ambientes de realidade virtual já permitem que pessoas ensaiem situações reais, como pitches de vendas, negociações complexas e diálogos sobre desempenho. Para isso, elas não assistem a vídeos nem leem artigos, mas colocam a mão na massa com respostas, ajustes e novas tentativas. Tudo isso acelera a capacitação.
“Creio que nenhuma empresa no mundo possa pagar um coach para cada colaborador”, pontua Hess. “Mas, hoje, isso passou a ser possível em termos técnicos e econômicos, pois podemos proporcionar uma experiência hiperpersonalizada para praticamente toda a força de trabalho em larga escala. Esse movimento é revolucionário”, comemora.
Isso promove duas grandes mudanças no universo do trabalho:
Basicamente, hoje todo colaborador pode praticar repetidas vezes para atuar em momentos importantes para os negócios, sempre de forma contextualizada e sem medo de julgamentos.
A prática deixa de ser um privilégio para poucos e passa a fazer parte do desenvolvimento de habilidades na organização. Esses tipos de ferramentas oferecem a mais pessoas um espaço seguro para desenvolver autoconfiança para agir quando for preciso, aprimorando interações reais.

Em vez de depender de processos manuais e ultrapassados, as organizações estão realocando talentos e usando mais fluxos com IA. Isso vale tanto para a área de T&D quanto para qualquer outra. As consequências são inevitáveis: as equipes de aprendizagem precisam ser tão fluentes em IA quanto a força de trabalho a que atendem.
Na Boehringer Ingelheim, a resposta foi decisiva. O pessoal de aprendizagem foi com tudo logo no início ao cuidar do upskilling não só da área de T&D, mas também dos líderes seniores e executivos de RH. A ideia não era transformar a liderança em especialistas em tecnologia, mas, sim, ajudá-la a compreender o que a IA é capaz de fazer, como ela funciona e quais são os riscos de seu uso.
Para os departamentos de T&D, surge então um dilema, pois a aceitação e a aplicação da IA podem minar ou potencializar a influência do T&D na empresa. Tudo depende de como as equipes abraçam as oportunidades que esse novo modelo operacional oferece.
Leteney aconselha os profissionais de aprendizagem a focarem em aprimorar suas próprias habilidades relacionadas à IA, a fim de terem mais capacidade de puxar esse movimento de transformação e orientar a estruturação tecnológica de suas empresas: “Neste momento, é preciso correr para se capacitar, caso você ainda não tenha feito isso. Afinal, os negócios já estão se transformando, e pode ser que você precise dizer, do ponto de vista dos negócios, quais ferramentas você pode usar”.
Isso vai muito além de ter que decidir quais ferramentas serão utilizadas. É um momento para mudar a forma de atuação da equipe de T&D através do uso da IA, e muitos profissionais estão de olho na criação de conteúdos.
Podemos dizer com segurança que a criação de conteúdos é uma das aplicações mais comuns da IA para soluções relacionadas às tecnologias de aprendizagem. Segundo uma pesquisa realizada pelo Fosway Group e citada por Leteney, 71% dos participantes afirmam que utilizaram a IA como apoio em suas atividades de criação de conteúdos.
Dependendo da necessidade, há variações nesse processo. Por exemplo, novos recursos de IA podem ajudar no gerenciamento de conteúdos de algumas maneiras, tais como:
Contudo, é importante frisar que se trata de um apoio. Ainda será necessário que o ser humano esteja envolvido em todo o processo para que os conteúdos tenham qualidade e passem pelo olhar de especialistas. Em outras palavras, alguns profissionais de aprendizagem poderão se concentrar em tarefas mais estratégicas e especializadas, deixando para trás trabalhos manuais tediosos.
A IA está abrindo as portas para novas práticas e padrões de segurança que precisam ser observados como parte da implementação de qualquer tecnologia. A cada ano surgem mais diretrizes acerca do assunto: a União Europeia foi a primeira a promulgar uma lei abrangente sobre IA, e outras centenas de regulamentações surgiram em 2025 só nos Estados Unidos.
Devido à constante evolução da IA, as equipes jurídicas sofrem pressões enormes. Afinal, já no primeiro contato com as ferramentas de IA e tecnologias de aprendizagem, é papel delas cuidar da segurança e do compliance de suas empresas. Contudo, as coisas estão melhorando. Quanto mais as equipes jurídicas trabalharem nesse ambiente e se familiarizarem com as ferramentas, mais tração esses diálogos sobre governança ganharão.
Nesta nova era das tecnologias de aprendizagem, é essencial tratar as equipes jurídicas e de governança como parceiras, não como complicadoras do processo. Por isso, envolva-as desde as primeiras tratativas, dê espaço para que aprendam com a equipe de T&D, apresente perspectivas sobre segurança e limites, e ajude a minimizar os obstáculos que venham a surgir.
Hess nos presenteia com uma fala cirúrgica: “Convide a equipe jurídica para trabalhar com o seu time. Se vocês tiverem comitês internos, convide-os também. É fundamental que eles embarquem nesta jornada, pois também estão dando os primeiros passos. Demonstre gratidão e tenha paciência com esses parceiros. Isso é importantíssimo”.
As tecnologias de aprendizagem não chegarão a um estado definitivo. Elas precisam continuar acompanhando a evolução das necessidades organizacionais e das habilidades da força de trabalho. No entanto, uma coisa é certa: as equipes de aprendizagem e as tecnologias utilizadas precisam ajudar as organizações a traduzir prioridades dinâmicas em habilidades de forma contínua. Por isso, é crucial abrir espaço para práticas aplicadas, acumular habilidades sem precisar aumentar as equipes, e promover uma evolução responsável com governança, regulamentação e confiança.
Esse tipo de mudança não acontece de forma isolada. São os líderes, fornecedores e profissionais das áreas de aprendizagem, RH e TI que estão criando essa nova realidade. “Neste momento, há muita potência nos diálogos entre os fornecedores e os clientes corporativos. Juntos definiremos o futuro”, aponta Leteney.
No caso de organizações e equipes de T&D interessadas em acelerar a aprendizagem, adotar a IA e atrair pessoas, esse futuro das tecnologias de aprendizagem já está tomando forma.
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